Me constranja com teu amor Yeshua
Á
Átrio dos Gentios
Removendo a poeira secular
     
 
"Este nos consolará acerca de nossas obras e do trabalho de nossas mãos, por causa da
terra que o Senhor amaldiçoou."

                                                                                                          Gn 5, 29
 
     
 
Construindo um paraíso

Quando olhamos para nós e para nossos pares ou a sociedade como um todo, nos vemos em
constante comparação para ver onde nos situamos  em relação aos outros, como se houvesse
realmente grandes diferenças e às vezes somos tentados a nos satisfazer de modo relativo ("estou
melhor que os outros?!"), mesmo assim, no fim, ou no fundo, fica mesmo o desassossego da alma,
daquela porção de nós que nos importuna e nos lembra que alguma coisa deve estar errada, uma
evidência disto é a busca incessante de posses ilimitadas, beleza perfeita e juventude perene.

Em  outros textos (1), abordamos como desejamos alçar o céu e sua excelência, mas olhando as
coisas ordinárias, é possível encontrar apenas três estados (o terceiro mais por inferência do que
por experiência).

Alguns comentários prévios. Se você concordar com a proposta deste texto, alguns cuidados
devem ser observados.

Aparência

Primeiro: é previsível que as etapas sigam a ordem crescente proposta aqui, mas não é assim, é
justo (e cômodo) afirmar que Yeshua operou exclusivamente na terceira. Não poucos devem ter
passado da primeira para a terceira. Outros nem tiveram muito tempo e admiravelmente foram
precoces na segunda. Enfim, nada é tão certo, mas...

Segundo: uma simples observação geralmente é suficiente para ver onde estamos, ou está o
outro, mas o que de fato define o estado é o coração. Se uma pessoa está com o coração na
primeira fase não se deve esperar que tenha conhecido outra, ou seja, não se desce estágios, se
está abaixo é porque nunca esteve acima, não importa o quanto pareça ter sido outra coisa.
Estando em estágio superior e cair, o que pode acontecer com qualquer um, talvez seja apenas
uma suspensão de “estádio” (como Elias).

A fase de “Carregamento”

Antes das três fases, há a fase, como diremos, zero, ou de carregamento. Por que não estabelecê-
la entre sete e doze anos? Não importa, nesta fase da vida, são carregados sonhos, aprendizado,
promessas, medos, e uma infinidade de coisas que operam no físico, na alma e no espírito; para o
bem e para o mal. Aqui caberia um mundo de comentários, mas, no fundo você conhece bem do
que se trata.

Mas uma observação: às mulheres

Este texto e sua proposta é exclusiva aos homens, não sei sua aplicação às mulheres, para mim,
mulheres, ao menos as que amam, topam tudo, penso que as “nervosas” (ajudadoras idôneas(2))
procuram fazer o amado subir a ladeira, as mais generosas (ajudadoras idôneas, em outro
sentido), apenas apoiam o homem, o que também é bem interessante.

Às mulheres, este texto servirá apenas como curiosidade, como ver amebas (nós, os homens) no
microscópio.

           "Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de
que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti;
com dor comerás dela todos os dias da tua vida."

Aqui, uma análise sobre as maldições originais, pode ser interessante... Ao homem, a maldição do
trabalho (e a prova de que a maldição da terra é de total responsabilidade do homem, daí a
necessidade do trabalho e das três “funcionalidades” aqui apresentadas e exclusivas aos
homens).

Se por um lado, o trabalho é uma maldição em si, carrega sua transcendência, e na evolução de
todas as coisas, no transcorrer do tempo(3), trabalho também se torna um meio de superação
humana e é coroada, em sociedades com valores humanos, com distinção e honra.

Do mesmo modo, a maldição da mulher(4), teve sua transcendência, contudo, parcial, quanto à
maternidade, ainda goza de relativo prestígio e honra. Mas quanto à submissão de vontade (dela
para com o homem), esta, ainda, não encontrou sua transmutação, e isso por culpa exclusivamente
masculina.

Uma forma de escapar deste destino é ver na submissão de vontade algo muito especial. Uma vez
que não foi imputada à mulher a “correção” do mundo, esta estaria livre para ajudar o homem
naquilo que ela já superou  e é senhora em termos de aprendizado; mas claro, isto exige uma
compreensão masculina muito apurada.

Disfuncionalidade

Depois da fase de carregamento, nossa mente parece que não se achará mais, estando por
nossa conta, temos que entrar no mundo adulto, nesta fase estão os primeiros ensaios de nossa
vida como homem e ajustar tudo o que foi “solicitado” (a “maldição”) parece impossível. A
imposição do trabalho soou como um inferno iminente e inescapável, não só trabalho ordinário,
mas o extraordinário, o trabalho de curar o mundo. Ao ver o tamanho da encrenca, desistimos e
“todos” desistem, ao menos por um tempo.

Muitos desistem completamente, nunca verão o mundo adulto, nunca saberão as dores de um
homem, serão para sempre adolescentes, por mais que imitem uma vida adulta. Muitos começam
e desistem, deixam às mulheres tais obrigações, das mulheres esperam os favores sexuais e uma
mãe para continuar a sua fase imatura e ingênua (mas muito longe de ser inocente).

Brinquedos não faltam e se os brinquedos não atendem, há um arsenal de atividades e meios de
negação do “trabalho“. Os ideais inócuos da juventude se tornam cristalizados e podem perdurar
até os setenta anos, o que não é pouca coisa.

Portanto, fugas das obrigações são frequentes e somam incontáveis divórcios e desilusões
amorosas.

Vida funcional

Aqui é a fase da absoluta falta de vida masculina própria, um deserto supremo, um estágio para
esvaziar vontades (lembram a sujeição da vontade feminina, vejam que, de fato, não existe a tal
vontade masculina), no melhor estilo das religiões orientais, a nulidade individual completa.

Este é um estágio masculino em sua execução, mas configurado por elementos femininos,
femininos mas não obrigatoriamente relativo às mulheres, uma vez que alguns de nós tem
compreensões femininas sobre a natureza da preservação humana (um atributo essencialmente
feminino).

Se o homem falhar, a maioria das mulheres irá assumir com muita propriedade este papel.

Uma fase demasiadamente longa ao homem, exaustiva, que leva a inúmeras quedas, ansiedades,
frustrações e outras tantas coisas insidiosas que conduzem a uma vontade de sair e não voltar
mais.

Ao homem, cabem assaltos sobre suas finalidades viris (porque esta fase, como dito, é
essencialmente feminina e voltada para a mulher), estes tendem, ora para a disfuncionalidade, ora
para a fase três (pois esta foi “carregada“ e é a nossa solução final). Uma angustia permanente,
histórica e que não apresenta uma solução nos momentos de crise existencial.

Dores, trabalhos, decisões, “suportações” e a necessidade absurda de ser sempre presente.

Esta fase é a do bom burguês e do amor romântico com seus ideais de permanência, de dever
cumprido, do “lar doce lar”, uma realização necessária, um trabalho importante, a continuidade da
existência social, presente em preocupações políticas e religiosas.

Bom trabalho, muito bom mesmo, contudo, não excelente.

O trabalho excelente ou extraordinário

Esta fase é a do Reino, o verdadeiro resgate deste mundo, o trabalho que transcende toda a
maldição e é o verdadeiro trabalho dado a Adão.

Está encerrado e lacrado em cada um, foi carregado, está na memória das mulheres, pois são
mais sensíveis à lembrança do Reino. Está na memória do homem, no seu profundo desejo de se
tornar Homem, de alcançar a realização mítica do herói, que parecia ser possível na fase
disfuncional e que volta a incomodar como um martelo na cabeça do homem em sua fase
funcional.

Desta fase, surgem as possibilidades de consagração das aventuras oníricas da infância, a
viabilidade de amizades genuínas, cujo assombro, vez por outra, se manifesta em nossos
caminhos. Aqui está o descanso do guerreiro, que sente paz quando está na guerra mais do que
quando está seguro em casa.

E julgando estar neste estágio, que homens mataram e corromperam, para se tornarem líderes, em
projetos políticos ou religiosos, em uma insana e equivocada percepção de imortalidade.

É aqui que o homem vê sua transcendência, seu sentido inato, a realização das promessas que
lhes foram dadas bem como da resolução dos dilemas e pesadelos depositados na infância.

É neste estágio que homem e D´us se encontram e o homem pode suportar Sua presença. É aqui
que a morte tem outra dimensão e visões de outras dimensões são possíveis.

É onde todos, que fadigados com a inadequação ao mundo, querem estar, vencidas ou ordenadas
as fases anteriores.

Em nosso contexto (humanismo messiânico) é o Reino de Mashiach, é o Trabalho de (e em)
Yeshua, Seu chamado e nossa redenção.

M. Mingra

1 O texto Paraíso aborda, muito superficialmente, nossa tentativa de alcançar o céu na terra por meio de perfeições
terrenas, também foram abordados, igualmente de forma superficial, os anseios burgueses e amores românticos
em busca do paraíso perdido.
2 Gn 2, 18

3 Não quer dizer que o trabalho não possa ser penoso para a mulher (muito pelo contrário, sendo concebido a
homens, quase que certamente serão ainda mais penoso a elas), seja advindas de necessidades decorrente de
omissões masculinas, das injustiças e inadequações no ambiente de trabalho ou, ainda, de segundas e terceiras
jornadas diárias. Contudo, o sentido de maldição não é aplicado, não em mesmo sentido que ao homem.

4 "Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua concepção; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu
marido, e ele te dominará".

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