Um tanto da Palavra
     
 

Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos
os homens.
 
 
Coríntios, capítulo  15, versículo  19
 
 


De Coríntios 15, versículo 19, temos esta manifestação de Paulo, em meio ao debate e as dúvidas sobre
Cristo, sua ressurreição, propósitos da vida e entre outras tantas dúvidas que suscitam os que creem, os
que querem crer e os que parecem desconfortáveis com a crença.

“Se esperamos Cristo só nesta vida...” O que somos? Extrapolando um pouco, se a vida é isso, que
faremos disso?

Sempre gosto deste olhar existencialista, do qual a Bíblia parece ser pródiga.

“Somos os mais miseráveis dos homens”. Sim, de fato somos. De um jeito ou outro, somos.
Em tempos de proselitismo ateu, é bem fácil estar na berlinda.

Crer e seguir crendo. Crendo naquilo que não se comprova pelo método científico. Nunca se provará, é
outro escopo, outro desafio, outro "lugar".

Crer naquilo que não é vida e viver naquilo que é apenas crença, que se mostra diferente do que se crê.
Temos tudo para viver de um modo mórbido. Certamente vivemos, morbidamente.

Ou se crê, ou não se crê. Não é possível adaptar as coisas, este é o salto insano do cristão.

Não uma vida em Cristo para o melhor desta vida. Ainda que existam boas evidências disto, mesmo que
apenas aparente.

Esta dúvida, sobre Cristo, é solitária. Só no final da jornada é que se saberá se valeu a pena. Não se
emprestam certezas, ainda que se testemunhe, é exclusiva. Se o Deus de Israel é um Deus do coletivo,
em Cristo, temos o Deus do homem só. Do homem que considera dentro de si, “Se esperamos Cristo só
nesta vida”, que miserável homem sou.

Neste ponto, Paulo lança-nos em um turbilhão, nos arrasta para dentro do nada, para a face do abismo.
Ele não apenas está defendendo a Fé, afortunadamente ele não vivia da igreja, então não estava sendo
proselitista, também não estava tentando resolver suas dúvidas existenciais com a adesão de um corpo
em Cristo. Ele estava sendo realista, nada temos neste mundo. Agora é Cristo ou nada, não é no sentido
de entorpecer os sentidos para suportar mais 20, 30 ou 80 anos. Paulo estava cansado demais para
isso. Temos um Paulo que não precisa provar nada para ninguém, nem para ele mesmo.

Era seu último tirocínio, quase no final de sua carta.

“Ora, o último inimigo que há de ser aniquilado é a morte.”

Ora, o que mais falta? Nada, homem vivido que era. Vamos ao que interessa, teria pensado e se
comprazido.

O que de fato o homem vence, ou antes, precisa vencer? Que, de fato, só há uma batalha e um inimigo,
o pecado.

“Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei”.

Assim, a questão existencial da vida ganha um propósito maior que a ressureição, que a própria vida, ou 
a certeza disto ou daquilo.

Seu propósito é lidar com a questão do pecado, de onde Jesus, e sua cruz, se mostra mais vívido e
único. Não há vida de modo algum quando somos derrotados por crenças que aniquilam a mensagem de
morte e vida da cruz. De onde o homem pode se defrontar consigo próprio, sem medo, e perceber que o
agente da morte está em nós e do engano tiramos o lenitivo para suportar a vida.

Não é, portanto, uma questão de viver ou morrer, porque crendo ou não em Mashiach, seremos todos
mórbidos, seremos todos fatalistas, seremos todos os mais miseráveis dos homens. O Cristo ressurreto
é antes de tudo um Cristo que nos mostra a nossa condição e, Sua Vida, mantida viva, é a perseverança
de uma luta contra nossos instintos e nossa condição mortal e mórbida.

É possível superar esta condição sem Cristo (declarado)? Sim, basta manter o distanciamento daquilo
que somos, muitas práticas espirituais ou racionais dão conta deste itento. Mas lutar contra nossa
natureza pecaminosa, sem Cristo... Ai temos muitos "óbices", ou no mínimo, muitas discussões.

Não lutamos para viver, nem mesmo lutamos contra o pecado para viver (viver por viver, um fim "último",
ensimesmado e inútil - se não é este o cerne nesta mensagem de Paulo).

Vivemos para enfrentar nossa condição miserável, gerado por um pecado que nos soa irracional, sem
sentido ou imposto injustamente, mas em nossas fraquezas, quando estamos sós, quando estamos
naquele lugar onde argumentos nunca apascentam, não importa quão velho você seja, neste lugar,
somos sempre derrotados. Eu e você sabemos disso, não sabemos?

É neste lugar, somente ai, quando estamos sós, é que temos uma pequena chance de lembrar o que
Paulo intentou dizer-nos (como quem guarda dinheiro na meia, para o caso de ser roubado e estar longe
de casa).

Se esperamos Cristo, só nesta vida, perdemos... Esqueça, não perca tempo, não se justifique, não siga
tentando.

É neste lugar, quando estamos sós, com aquela lembrança de morte e de sua causa, coisas que se
escondem neste lugar, que é sempre escuro, que podemos insistir e crer que Cristo é ressurreto, que
venceu a morte e que nada importa, "Alguém" venceu, e isto me basta. A ressurreição de Cristo é
soberana e suficiente. Neste momento, esta  é uma decisão íntima, solitária e insubstituível. É uma
decisão minha,só minha, e, também, é sua, só sua.

M. Mingra
maio.15
 
     
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