Resistência
     
 
"De quem é esta efígie e esta inscrição".

                                                                                   Lc 22, 20 (frag)
 
     
 

A inveja como sentido

Dos males da ideologia até a exposição das redes sociais, passando pela sociedade de
consumo, temos este apelo por coisas. Em uma sociedade com tendências crescentes de
hedonismo, os desafios são enormes.

O que pesa contra este hedonismo é a impossibilidade econômica de atender desejos sempre
crescentes. Impossibilidade pelo montante de valor agregado ou, ainda, por questões de
sustentabilidade ambiental.

Nos tornamos, ou melhor, agora somos uma sociedade consciente do desejo ilimitado. A
imposição de limites, em muitos casos, é ofensiva.

As rupturas realistas que nossos antepassados experimentaram, quando um prato de comida
decente era o máximo que se podia esperar da vida, foram afortunadamente superadas pelos
ganhos de produção.

Mas a Palavra cita as duas filhas da sanguessuga (Pv 30, 15).

Uma das boas experiências cristãs foi o modo contido de certos protestantes, que viam na
prosperidade bíblica apenas uma oportunidade de ajudar os outros. Uma abordagem realista,
contudo, confortável de lidar com os limites humanos. Uma grande sacada.

Esta abordagem, a protestante, sempre foi marginal, prosperou por certo tempo na Europa
setentrional, mas, sobretudo, nos EUA, onde ainda pode ser sentida na comum criação de
instituições familiares.

Mas são exceções, não a regra. 

Este apelo, ou, esta cobiça tem gerado alguns problemas.

Um deles, milenar, a constituição de uma pessoa acima das demais. Se os recursos são pouco, o
exercício da divindade humana é requerido a poucos, que servem de agente simbólico das
possibilidades humanas. Nasce o rei símbolo.

Quando as necessidades humanas suportam os desejos de um grupo ampliado de novos reis,
começamos a ter as ideologias de igualdade, um discurso que foi mais útil a possibilidade de
cambiar os reis, trocando pessoas, bem como sua nomenclatura, mas de modo algum, sua
realidade e perversidade.

Depois, a possibilidade de ampliação democrática do reinado.

A casa, no burgo, então se torna este reino acessível aos artesões e seus burgueses. E o seu
patriarca, um rei. Uma conquista tipicamente protestante.

Então, mais ganho de produtividade. Agora não basta ser rei em seu lar, este lar pode ser muito
mais que um bom e singelo ambiente acolhedor. A promessa do céu na terra agora é viável. Basta
estudar e trabalhar.

A casa precisa ser grande, ter de tudo, e não somente a casa, tem o poder que a tecnologia e o
petróleo podem nos dar. Mobilidade, conforto e satisfação da alma

“E direi a minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come,
bebe e folga”.
                                                                                                     Lc 12, 19

Esta divinização do homem, ou seja, a possibilidade de transcender a condição humana e suas
grotescas limitações podem ser concretizadas em vários níveis.

Vencidas as necessidades básicas dos homens, podemos nos dedicar a satisfazer os desejos.

Uma libertação com gosto de derrota.

“Me dá”, “Me dá”, gritam as filhas.

Se antes, o rei só podia aliviar sua solidão desfilando entre seus súditos, com sua coroa, exibindo
o brilho de sua mente e de sua vitória sobre a humanidade. Agora temos esta imolação coletiva
potencializada pelo mundo virtual.

E se... O petróleo sumisse? A água acabasse? O verde morresse? O silêncio desaparecesse? E
o tempo escasseasse?

Nosso movimento já se encontra francamente em direção aos oásis, cada vez mais distantes e
cada vez mais caros. A luta recomeçou sem que nos déssemos conta de que a básica estava
acabando.

Nossos desejos já têm o status da necessidade. Agora já podemos adoecer por falta de
realização dos desejos.

A realização das necessidades deveria ter sido o objetivo. Não o começo de uma corrida de ratos.

Há algo de errado com o desejo e, por conseguinte, da inveja? (Pois só a inveja dá sentido e
esperança ao desejo)

Humanamente, não!

O erro é sua expectativa espiritual. A satisfação do eu divino de modo ridiculamente mundano.

Do desejo à inveja, da inveja à cobiça, da cobiça ao vale-tudo. Aproximar-se do alvo pelo sentido
errado, afastando-se dos verdadeiros objetivos espirituais da compaixão, o qual, verdadeiramente,
nos leva ao divino em nós.

Não é à toa que antagonizam Deus e seu adversário, amor e ódio, verdade e mentira, realidade e
ilusão.

Estão dentro de nós como possibilidade e ação. E nossas escolhas selam o que somos ou
seremos.

E como sair desta?

A César o que é de César.

Simples assim.

A face de César pertence a César. Por que entraríamos em seu jogo?

A subversão consiste na negação dos apelos do desejo. Da felicidade estampada em um pedaço
de metal. Ou seja, a aparência das coisas, que emprestam um acesso ao paraíso apenas e
ridiculamente ilusório.

Quanto às necessidades, aparentemente negadas pela usurpação do necessário de uma pessoa
para o desejo de outra, temos que a confiança é sua única saída.

Esta tensão não é simples de resolver. Mas só é possível ter um começo de solução com sua
constatação. Constatar que César só brilha por estar estampada em um metal. A coroa de César
não brilha de fato. É apenas uma miragem e será tão mais constante e “real” quanto for a inveja em
nós. É isso que espelha a face da moeda. Nossa própria face e nosso desejo ancestral de vencer
o mundo ordinário.

Se os súditos se enfadassem com a caravana real, possivelmente o rei desceria de sua
carruagem e procuraria se misturar com os demais.

Isso já aconteceu em alguma fase de sua infância. Você foi emulado a contemplar um brinquedo,
você não pode, catou seu rumo, foi brincar de outra coisa e, por fim, a outra criança acabou vindo
até você.

Isto foi a sombra daquilo que você é chamado hoje, para ajudar o mundo a vencer seus dilemas
morais e impor alguma racionalidade a esta geração

Marcos Mingra


 
     
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